Após 7 anos, tragédia de Brumadinho será examinada na Justiça |
Feiras. Feiras livres. Feira de rua. Tradição e cultura. Encontro de pessoas. Gastronomia. Ambiente de informalidade. Acolhedor.
Diversidade. A feira, e o feirante, e a freguesia, centralidades e amplitudes sociais. E feira sem pastel, e sem aquele café saboroso, não é
feira.
Frequentá-las, um momento de descontração. Por índole, todo o feirante, a seu modo, além de operoso, é um artista nato. O tempo ensina
as manhas do ofício. E perspicácia não lhes faltam. Conhecem os frequentadores pelo modo de andar: observam, pechincham e degustam.
Se ressabiam, contudo, com os contumazes apalpadores de plantão.
Alerta em vão:
- É tudo fresquinho. Tudo igual. E isso adianta. Mas freguês é freguês, por natureza, recalcitrante. Mais do mesmo.
É certo, a feira começa muito antes. Começa na lavoura. Da lavoura até as bancadas há um longo affaire: seleção dos legumes, frutas,
hortaliças e grãos. E muito mais: queijo, salame e por aí afora. No transporte, todo o cuidado é pouco.
A disposição das frutas e hortaliças. Arranjos. Técnica e arte, ao mesmo tempo. Há a etapa de preparação do ambiente. Montagem. Isso
acontece bem antes, via de regra de madrugada. Embora a jornada extenuante, nunca pode faltar aquela dose de bom humor. Lances
criativos. E tiradas geniais, como esta entre dois feirantes:
- “Seu zoio de boi, veja se acorda”. Assim reportava-se o feirante a um colega de tertúlias. Boa essa, zoio de boi. Tudo a ver. Noite mal dormida. Pestanas escoradas. Essa foi em São Roque, Estado de São Paulo.
De outra feita, na famosa feira do bode, travessa Bachmann em Joinville. Problemas. O fiscal se encrespa porque as melancias estavam
enfileiradas debaixo da bancada. Dispô-las sobre a bancada, a recomendação. E, embora, as ponderações do feirante, pesadonas que
eram, o fiscal batia o guizo. O feirante, astucioso, mas bem humorado, devolve a bola:
- Melancia dá em árvore ou no chão, no baraço? Foi o suficiente para levar uma pesada multa.
E aquelas de praia. Temporada de verão. Calorão dos diabos. O polaco, tradicional feirante, naquela manhã se mostrava mais do que sarcástico.
Conhecido por suas tiradas nada republicanas, apimentava a freguesia. Piadas de bolso. Trejeitos. Improviso. Atiçava o público presente, a maioria pessoas da melhor idade. Eita mundão! E entorta a peroba:
- Não fumam, não tomam, não praticam mais “aquilo”, mas dê-lhe apalpar frutas. Assim, vou acabar quebrando.
Humores, à parte, aos fatos.
Há feiras e feiras. Muitas delas de larga tradição; ensejam regionalidades. Curitiba, por exemplo. Jaime Lerner, emérito urbanista, afirmava:
- “Feira, antes de tudo, é um ambiente de encontro de pessoas”. Verdade. Somente se consolidam quando se transforma num ambiente de
congraçamento. De reencontros e convívio. Ou seja: quando o freguês volta, e não a mercadoria.
Certa ocasião estivemos por lá a intercâmbio. A feira principal – tipo “A” -, na zona central; girava como os ponteiros de um relógio. E, menos
aos domingos, em todos os demais dias da semana. Barracadas padronizadas. Feirantes uniformizados. Balanças para aferição de peso. Fiscais da municipalidade atentos. E o público, às compras, disciplinados. Prosa à solta, percebia-se. Bom dia, acalorados.
Perguntamos sobre o perfil dos feirantes. Informaram que havia basicamente dois: os feirantes profissionais, alguns já na terceira geração.
E também os eventuais. Entre os últimos predominavam os agricultores. Safras sazonais, o principal motivo.
Havia outras feiras, num arco mais afastado. E também nos bairros. A Central de Abastecimento de Hortifrutigranjeiros(CEASA/PR), operava
como âncora de suporte, especialmente fornecendo mercadoria para os feirantes profissionais. Contato motivador. Estrutura municipal nada
modesta dava o devido suporte.
É certo, portanto, há feiras e feiras. Algumas pegam, outras não. Mas somente se consolidam – percebemos isso –, quando se tornam um ponto de encontro de pessoas.
De parte dos produtores rurais, percebe-se que há aqueles que se dedicam à produção e, outros ao comércio. Constatamos isso em Osório,
nordeste gaúcho. Um grupo de famílias dedicava-se à produção. E outros faziam feira nas praças de Porto Alegre. Modelo associativo portanto.
E as feiras, assim como as Ceasas, operam como escolas de horticultura. Ambiente de troca informações. Experiências. Formação de
preços. Assim rola a vida.
Há quem diga que o sistema virtual, entrega virtual de mercadorias, prevalecerá. Acreditamos que não. E trocemos para que nunca aconteça.
Seria desalentador. Negligenciar o calor humano, ó não!
Dispensar um dedo de prosa, ora essa! E um saboroso pastel. E aquele cafezinho esperto. Alvissaras, estamos por enquanto salvos!
Joinville, 24 de janeiro de 2025
Onévio Zabot
Engenheiro Agrônomo

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