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O dia que não teve 'Tudo em uma noite'

  • Arquivo pessoal de Etelvina de Carvalho Eggert - Da direita p/ a esquerda - Chiquinho Cavadeira, Vavo e Armênio -Foto de 1968

Já não existem tantos apelidos mas lá pelos anos 60 havia dificuldade em conhecer o nome de batismo até de amigos mais próximos, principalmente em cidades como São Francisco do Sul. Neste caso, o problema foi ao contrário: sabia somente o nome de batismo de meu amigo e não conhecia seu apelido.

Na Rádio Difusora, além de noticiarista e locutor comercial, eu prestava alguns serviços na administração do setor artístico da emissora. Durante algum tempo, o Francisco Renato Lemos, residente em São Francisco do Sul, apresentava aos sábados um programa de auditório intitulado "Tudo em uma noite". Nos fins das tardes de sábado, o Francisco chegava com uma Kombi abarrotada de brindes para sortear em seu programa durante a noite.

Em certas ocasiões, a Difusora privilegiava transmissões externas na cobertura de eventos. A alteração na programação era sempre anunciada com antecipação ao apresentador do programa. Certo dia Wolfgang Brosig, proprietário da emissora informou que na noite do sábado seguinte haveria transmissão externa e que o programa "Tudo em uma noite", não iria ao ar.

Assumi o compromisso de avisar ao Francisco a alteração da programação. Entre nós havia uma forte amizade. Cada vez que conversávamos, ele renovava o convite para tomarmos uma cerveja no tradicional Bar do Bolacha. Uma vez perguntei - Como faço para te achar em São Francisco ?

Muito brincalhão, respondeu - "Sou muito conhecido, duvido você não me encontrar, basta perguntar para primeira pessoa que encontrar na rua".Na época a comunicação telefônica era deficiente e existiam poucas linhas. Joinville, com o maior centro industrial de Santa Catarina, possuía somente 2 mil telefones.

Minha irmã Odete residia em São Francisco do Sul, onde era gerente da ECT - Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Visitava com frequência sua casa, já que além do amor que liga naturalmente os irmãos, eu tinha mais um motivo para a assiduidade: O cunhado Osni Truppel é meu amigo desde a infância. Uma amizade que nasceu em 1943, quando estudamos juntos na Escola Isolada na Ponta de Baixo em São José, na Grande Florianópolis.

Nos anos 60, como gerente dos Correios, Odete conhecia quase todos os moradores da cidade. Logo minha irmã saberia aonde encontrar o Francisco Renato Lemos. Quando perguntei e a Odete começou a pensar, já fiquei preocupado. Sua resposta negativa, dizendo que não o conhecia, reduziu minha esperança de encontrá-lo.

Pouco metros separavam o prédio da Agência dos Correios do Bar do Bolacha. Lá certamente saberiam informar o endereço do Francisco. A resposta também negativa, agravou minha preocupação. Voltei para Joinville sem com seguir localizar o Francisco. Para o Brosig, devo ter passado por incompetente. Mentalmente, eu já havia incito o nome de meu amigo na lista de mentirosos.

Chegou a tarde de sábado sem que eu tivesse conseguido passar a informação a Francisco de que a programação havia sido alterada. Por volta das 18 horas, ele estaciona a Kombi cheia de brindes para sortear no programa "Tudo em uma Noite". Sempre alegre, deixou o veículo e veio abraçar-me.

Só com muito esforço consegui dar-lhe a informação sobre o cancelamento do programa. Justifiquei dizendo que havia estado em São Francisco do Sul, para avisar-lhe, mas que minha irmã e o Bolacha, do bar, não souberam informar seu endereço. Desolado ele respondeu:

- Não acredito. Mas você me procurou pelo nome de Francisco?

- Claro, respondi.

Ainda mais desolado, ele terminou:

- Ninguém me conhece por Francisco, só por Chiquinho Cavadeira.

Extraído do livro "Memórias de um Repórter Joinvilense" - Ary Silveira de Souza - Editora Areia/2018. Com mais de 50 fatos históricos ocorridos em Joinville e nunca antes divulgados, o livro pode ser encontrado na Livraria O Sebo e Livrarias A Página.
Atualização:
Francisco Renato Lemos (Chiquinho Cavadeira) nasceu no dia 30 de janeiro de 1932, em São Francisco do Sul. Foi Conferente dos Portos de São Francisco do Sul, Araquari, Joinville e Itapoá.
Comunicativo, ganhou notoriedade através de sua atuação no rádio. Em São Francisco do Sul, na Rádio Difusora São Francisco e através da apresentação de programas de calouros e na Rádio Difusora de Joinville onde apresentou o programa "Tudo em uma noite."
Morreu em 6 de janeiro de 1996, aos 64 anos deixando imensa saudade no coração de familiares e de uma imensidão de amigos.
Para a atualização da narrativa do livro contamos com a colaboração de Giovani Lemos, um dos cinco filhos do inesquecível Chiquinho Cavadeira. As imagens que ilustram esta postagem pertencem ao arquivo pessoal de Luizão Vieira e de Etelvina de Carvalho Eggert. Contamos também com a colaboração de Marli Silva Avancini (Discolânda).

Arquivo pessoal - Luizão Vieira/Francisco Renato Lemos(Chiquinho Cavadeira) à frente, de óculos




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