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Anos 30, indústria artesanal marca início do desenvolvimento do Boa Vista - Conclusão

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Minha vida com papai - 124 anos de seu nascimento - Conclusão

Minha mãe abriu a porta e saiu correndo aos prantos.As mesmas lágrimas que antes cobriam seu rosto de tristeza agora jorravam de alegria. A algazarra era formada pelos filhos e alguns vizinhos que sabiam das rotineiras viagens de Thomas e Etelvino, solidários também viviam ansiosa expectativa.Assim que avistou o marido e o filho, saiu correndo em direção aos dois, ela não sabia a quem abraçar primeiro. Seus braços, como asas de anjo tutelar abraçaram o marido e o filho beijando-lhes a face também molhada de lágrimas.

Por que Pai e filho chegaram em casa pela frente já que o caminho do porto ficava nos fundos? Resposta que os filhos e vizinhos já sabiam. Ela tentava perguntar com a voz entrecortada por soluços. Enquanto isso os filhos e vizinhos haviam conversado com os recém-chegados. A alegria que reinava em frente a casa e muita gente sentada no banco de madeira em volta do tronco de uma velha cerejeira se transferiu para o interior da casa para onde se dirigiram os recém-chegados.Minha mãe que aos poucos se recuperava da ansiedade e dominava a emoção ao abraçar marido e filho, achou que havia chegado a hora de saber como os dois haviam chegado, por que não vieram pelo caminho do porto, e onde estava a canoa?

No início dos anos 40, época da ocorrência dos fatos, os meios de comunicação eram escassos, somente disponíveis de forma ainda incipientes nos grandes centros. Assim meu pai não podia se comunicar com a família para dar notícias sobre imprevistos durante as viagens.Antes que minha mãe perguntasse, foi meu irmão que pressentindo a curiosidade da mãe, abraçou-a e fez um relato sobre a viagem e o destino da canoa. Começou dizendo que ao terminar a venda da louça a tarde já estava pela metade. Quando se preparavam para deixar o cais o pai analisou rapidamente as condições do tempo e concluiu que seria uma temeridade lançar-se ao mar ante a ameaça de iminente temporal. Decidiu esperar já que o vento poderia mudar de direção e dissipar a ameaça de temporal.

Não demorou muito para que o temporal desabasse com fortes ventos e chuva intensa. Já no fim da tarde, abrigados no vão coberto do mercado e a visão do mar impedida pela intensidade da chuva, os dois já não mais alimentavam esperança de voltar a bordo da canoa. Mesmo que o temporal cessasse durante a noite não seria possível empreender a viagem de volta porque não havia condições para a navegação noturna.Os relâmpagos ainda cruzavam o céu e a canoa amarrada ao cais balançava agitada pelas fortes ondas quando meu pai falou para o meu irmão de sua decisão. Lembrou que à noite uma composição ferroviária partia de São Francisco do Sul com destino a Porto União com parada na estação de Joinville. Composto de vagões de carga e de passageiros o conhecido trem misto tinha à frente uma locomotiva movida a vapor,batizada de maria-fumaça. Ansiosos para rever a família, esperavam por uma estiada  para cobrir a pé a distancia entre o mercado e a estação ferroviária.

Já a bordo do vagão com pressa para chegar em casa e por fim ao à sofrida espera da família, pai e filho aguardavam o soar do apito anunciando a partida trem. Quando a composição iniciou seus primeiros movimentos uma sensação de alívio dominou os dois. Sabiam que além a viagem de trem que para eles terminava na estação de Joinville, havia ainda um grande percurso da estação até o bairro onde ficava a casa da família. Uma preocupação que nem os constantes solavancos provocados pela passagem das rodas do trem sobre as emendas dos trilhos conseguiam afastar.

Ainda mergulhado em seus pensamentos na esperança de encontrar uma solução para a viagem até a casa, o pai foi despertado pelo apito do trem anunciando a parada na estação de Joinville. Sem bagagem, saíram rapidamente do vagão. Os alimentos resultantes da troca por louças de barro, como não eram perecíveis ficaram no mercado aguardando a próxima viagem.

Já era madrugada, os dois permaneciam em frente à estação esperando a chegada de algum meio de transporte. Sabiam que durante o dia muitas carroças de frete e outrosveículos de tração animal faziam ponto no local, mas naquele horário os veículos poucos que ali se encontravam já estavam contratados e o itinerário de nenhum deles incluía a passagem pelo Boa Vista.

A lua iluminava a madrugada e as estrelas pontilhavam no céu contrastando com as nuvens escuras que antes encobriam o azul. Parecia que a natureza antes hostil, se enfeitava para saudar a volta dos viajantes do mar. Animados pelo belo cenário os dois resolveram botar o pé na estrada. A longa viagem exigia que atravessassem toda a cidade até alcançar a rua Quinze de Novembro, uma das vias centrais da cidade. A precária ponte de madeira sobre o rio Cachoeira, logo após o Cine Palácio, acesso ao bairro em que moravam, foi alcançada já no clarear do dia.

O sol já iluminava a manhã e a bela cerejeira que testemunhou o intenso sofrimento da família durante a longa espera projetava sua sombra benfazeja. Sobre os bancos em volta de seu tronco, mãe, filhos e amigos da família já estavam aguardando notícias dos dois que na opinião de alguns amigos, poderiam estar perdidos no mar. Foi então que aconteceu a tão festejada chegada de Thomaz e Etelvino. As lágrimas de tristeza provocadas pela incerteza foram substituídas por lágrimas de emoção e de alegria.

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